Em Magic: The Gathering, o problema raramente é o que você joga; quase sempre é quando você joga. Entender a estrutura do turno e as possibilidades de “quandos”, portanto, nos leva a tomar decisões melhores, gerando vantagens práticas e, ao longo da partida, um acúmulo de microvantagens que pode nos deixar à frente no clock ou, em instância mais exagerada, determinar a vitória.

Este texto pouco acrescenta ao jogador mais experiente, já acostumado a se punir pela mágica precoce no último torneio. Ainda assim, se conseguir ajudar alguns de nós - principiantes da magia - a pensar e compreender melhor o jogo, revisando regras e estruturas, seu objetivo estará cumprido. 

Comecemos com um exemplo entre turnos, propositalmente caricato:

O oponente baixa uma montanha e passa. Você faz ilha, tem Brainstorm na mão e decide conjurá-lo imediatamente. Se ele havia guardado um Lightning Bolt para o seu Delver of Secrets, ao perceber que você está sem interação, não precisa mais respeitar um soft counter (anulações condicionais do tipo “a menos que pague 1 ou 2”, como Force Spike e Spell Pierce) e já direciona três de dano na sua cara.

BrainstormLightning BoltDelver of SecretsForce SpikeSpell PierceExperimental Synthesizer

No turno seguinte, ele - que keepou uma mão com apenas um terreno - não encontra o segundo terreno na compra e é forçado a usar Experimental Synthesizer para buscá-lo; encontra, e passa a desenvolver o seu plano de jogo.

Se você tivesse mantido a mana aberta, poderia fazer o Brainstorm na passada dele ou, percebendo que não havia blefe e que o Synthesizer geraria o valor que gerou, usar Force Spike ou Spell Pierce no momento crítico, atrasando significativamente o desenvolvimento do oponente.

O exemplo é exagerado, mas ilustra um ponto central: o timing das jogadas importa.

Agora, ao analisarmos as jogadas dentro do próprio turno, é necessário retomar a sua estrutura para compreender suas particularidades e identificar as janelas corretas de interação.

O turno é dividido em cinco fases e algumas, por sua vez, subdivididas em etapas:

  1. Fase Inicial: etapa de desvirar (untap); etapa de manutenção (upkeep); etapa de compra (draw);
  2. Fase Principal Pré-Combate;
  3. Fase de Combate: etapa de início de combate; etapa de declaração de atacantes; etapa de declaração de bloqueadores; etapa de dano de combate; etapa de fim de combate;
  4. Fase Principal Pós-Combate;
  5. Fase Final: etapa final; etapa de limpeza.

Com isso em mente, passaremos a um exemplo de interação dentro do turno, entre as fases e etapas.

Você joga Pauper de MonoRed Madness e tem um Kessig Flamebreather pronto para atacar. Seu oponente está de UW Familiars e controla apenas um God-Pharaoh’s Faithful. Note que essa criatura é fundamental para que ele se mantenha no jogo, já que é ela que recupera preciosos pontos de vida. Com três manas abertas, na sua fase principal pré-combate, você decide baixar Guttersnipe. Em seguida, declara ataque com o Kessig, que é prontamente bloqueado pelo Faithful.

Kessig Flamebreather cardGod-Pharaoh's FaithfulGuttersnipe

O ponto aqui é o seguinte: se você não tivesse baixado o Guttersnipe e mantido as três manas abertas, a decisão de bloqueio não seria trivial. Ao bloquear, o oponente expõe uma peça-chave a ficar no alcance de um Lightning Bolt ou Fiery Temper. Nesse cenário, não é incomum que ele prefira aceitar o dano do Kessig para preservar a criatura.

Porém, ao antecipar o Guttersnipe, você reduz drasticamente a pressão: sua única forma imediata de remover o Faithful passa a ser um Fireblast, sacrificando duas montanhas e abrindo mão de quatro de dano direto. Com isso, o bloqueio se torna simples e seguro para o oponente.

Em termos práticos, conjurar o Guttersnipe antes do combate - em vez de depois - pode ter custado um ponto de dano e, mais importante, facilitou a decisão adversária. Ele ainda poderia bloquear? Sim. Mas você eliminou o dilema. “Easy block”, alguns diriam.

Outro exemplo, menos comum, mas que ilustra bem a importância de compreender fases, etapas e prioridades:

Você está em uma mirror de MonoU Terror, já em jogo avançado. A única criatura em campo é um Tolarian Terror do oponente, conjurado praticamente “no braço”, já que você havia exilado o cemitério dele. A resposta que resolveria o problema ficou no fundo do baralho dois turnos antes. Você conjura Brainstorm e encontra dois Tolarian Terror no topo; seu cemitério já está próximo de permitir conjurá-los por uma única mana.

Tolarian TerrorMental NotePonder

Pela sua leitura, com a resolução adequada de um Mental Note, ao menos um deles entra no campo no turno seguinte, estabilizando a mesa contra a ameaça que se aproxima do letal. Você devolve ao baralho um Ponder e um Mental Note, ficando com os dois Terror na mão, e passa o turno buscando a melhor janela.

Na sua fase final, o oponente conjura o Mental Note dele, ficando com apenas uma mana disponível. Como a prioridade retorna a você, surge a janela: resolver a sua mágica naquele momento - ainda no final do seu próprio turno - maximiza a chance de sucesso, evitando que, no turno do oponente, você enfrente mais mana aberta e risco de anulação.

Embora pareça contraintuitivo usar uma instantânea no final do próprio turno, a sua linha considera que a resolução dessa mágica é crítica para estabilizar o jogo na volta. Reconhecer que, mesmo na etapa final, após a ação do oponente, a prioridade retorna a você foi determinante para executar essa estratégia com segurança.

Mais uma vez, este não é um texto voltado aos jogadores experientes, mas àqueles que estão começando.

Entender como o turno se estrutura - e, sobretudo, reconhecer os momentos em que você pode agir - é, muitas vezes, o que separa a derrota da vitória.

Em Magic: The Gathering, decisões raramente são isoladas: elas se encadeiam no tempo, abrem ou fecham janelas e moldam as possibilidades do jogo. Jogar bem, portanto, não é apenas escolher as cartas certas, mas escolher o momento certo.

É nesse domínio do tempo - silencioso, quase invisível - que as partidas são, pouco a pouco, decididas.

 

Agradecimentos da equipe Arteus,
ao escritor voluntário e entusiasta do MTG em Cachoeiro:
Thiago Bonato Carvalhido.

 

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